Contexto: Embora o tratamento multidisciplinar seja recomendado para diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão arterial (HA), há uma carência de literatura científica que sustente a hipótese de estender essa estratégia terapêutica a pacientes com ambas as condições. Com o objetivo de relatar os resultados do tratamento multidisciplinar a longo prazo para esses pacientes e identificar estratégias para aprimorar seu manejo, realizamos este estudo.
Métodos: Os dados de pacientes com diabetes e hipertensão arterial (HA) com consultas de acompanhamento regulares em um centro multidisciplinar de tratamento de HA do Centro-Oeste do Brasil foram avaliados retrospectivamente. Foram incluídos pacientes com idade ≥ 18 anos, cadastrados no serviço até junho de 2017 e com no mínimo três consultas. Dados antropométricos, de pressão arterial (PA), laboratoriais, de tratamento farmacológico, de estilo de vida e de eventos cardiovasculares foram coletados na primeira (V1), na consulta intermediária (V2) e na consulta mais recente (V3) ao serviço. PA < 130 × 80 mmHg, colesterol LDL (LDL-C) < 70 mg/dL e HbA1c < 7,0% foram definidos como metas de tratamento. O teste de Wilcoxon para amostras pareadas foi utilizado para comparar as variáveis ao longo das consultas do estudo. Um modelo de regressão linear foi construído para identificar as variáveis associadas a um melhor controle glicêmico geral do paciente.
Resultados: Um total de 162 pacientes foram incluídos (idade média de 56,5 ± 10,8 anos). O tempo mediano de acompanhamento foi de 60 (intervalo interquartil de 40 a 109) meses, 80,2% da amostra era composta por mulheres e 83,3% não apresentavam histórico de eventos cardiovasculares. Os valores de pressão arterial, colesterol total, LDL-C, triglicerídeos e HbA1c mostraram uma tendência significativa de melhora ao longo das visitas de estudo (p < 0,001). Observou-se uma tendência crescente no uso de aspirina (p = 0,045) e estatinas (p < 0,001), além de um aumento na adesão ao tratamento (p < 0,001). Tendências significativas de melhora no controle da pressão arterial (p < 0,001), LDL-C (p = 0,004) e HbA1c (p = 0,002) também foram encontradas ao longo das visitas. As taxas de controle da pressão arterial, do LDL-C e da HbA1c em combinação foram baixas nas visitas 1, 2 e 3 (1,2%, 1,9% e 6,8%, respectivamente), mas apresentaram uma tendência de melhora significativa (p < 0,001). A adesão ao tratamento (coeficiente β = 1,20; IC 95% 1,07-1,34; p < 0,001) foi positivamente associada a um melhor controle geral dos pacientes.

Conclusões: O tratamento multidisciplinar de pacientes com diabetes e hipertensão arterial melhorou significativamente os parâmetros clínicos e laboratoriais, apesar do envelhecimento da população avaliada. Embora o controle combinado da HbA1c, da pressão arterial e do colesterol LDL tenha aumentado ao longo do acompanhamento, o manejo dessas três condições precisa ser aprimorado, e o foco na adesão ao tratamento deve ser direcionado para atingir esse objetivo.